Ele andava apressado para não tomar chuva, ela caminhava lentamente em seus passos trôpegos para evitar que a gravidade atuasse contra ela. Decidiu que jamais conseguiria acompanha-lo se não mudasse a cena. Então correu na direção dele, pulando em suas costas e agarrando seu pescoço, enquanto aconchegava seu rosto na curva do pescoço dele. Ele se assustou com aquela atitude repentina dela, mas guardou para si qualquer observação que passou pela sua cabeça, deixando o silêncio ser antiteticamente o único barulho entre eles. Carregou-a pelas ruas escuras sob seus passos rápidos que considerava normal. Algumas gotas começaram a cair até se engrossarem. Ambos se encharcaram. Ela então desceu das costas dele e se colocou na frente dele, com um sorriso enorme no rosto que o fez arquear a sobrancelha direita. Antes que se desse conta do significado daquele sorriso, ela colou seus lábios aos dele, beijando-o de súbito. Ele correspondeu. Na falta de oxigênio, houve a separação física. “Só queria saber o gosto do beijo de chuva.” Explicou, piscando para ele que apenas piscou seguidas vezes para tentar entender o que havia se passado ali. Era melhor não entender. Ela estava bêbada de qualquer forma, certo? Continuou a andar, os olhos observando a meninice dela perante a chuva que ainda persistia. Ele decidiu naquele momento que seu sabor predileto era beijo de chuva.
Alice
Alice
Texto escrito por Rebeca Vilaça
Em um momento de um monólogo, uma
demorada conversa comigo mesma, sem me importar de parecer louca, porque de
louco todos temos um pouco e por que ser normal se você pode ser louco, afinal?
Nesse momento em que fui Alice, perdida no meu próprio país das maravilhas,
descobri todas as cores da minha essência e ainda descobri que gosto de todas
elas. Gosto de cada particularidade minha, mesmo que eu soe louca, maluca,
bizarra, estranha, assustadora. Eu gosto, porque é o que me pinta. Esses traços
tortos que desenham um rosto e dão vida às minhas feições de garotinha frágil
são meus e são bonitos. E eu gosto. Gosto do que sou, mas também gosto de
adaptar o que sou ao mundo em que estou, apesar de não gostar muito desse mundo
atual. Para uma Alice que busca cores quentes e um romance utópico, o mundo
real é cinzento, frio e vazio. Por isso ela foge para seu país das maravilhas,
moldado por palavras que se cruzam e formam frases e a partir delas são
desenhados diversos personagens. Lá é seguro, lá é confortável, lá é seu
refúgio, lá é seu lar. Se enfia em metáforas que dão vida à sua imaginação. Sou
tão louca que falo em primeira pessoa para depois falar em terceira. Sou eu,
sou Alice, sou duas em uma e uma em duas. Busco o amor em sua forma mais
simples, mesmo sem saber amar, e ainda assim sou capaz de também amar. Acredito
nele, mesmo dizendo que desacredito. Cheguei a essa singela conclusão nesse
monólogo em que eu conversei comigo mesma. Percebi que não dá pra fugir de quem
eu sou, não posso me vestir de chapeleira e atuar para sempre, porque sou
Alice. Sou a garotinha que quer encontrar um par, que quer namorar e
eventualmente se casar. Sou a garotinha que mesmo adulta ainda brinca com
crianças, que se diverte com elas e que ri com facilidade. Sou a garotinha que
sonha em cuidar e proteger aqueles que ama. Sou a garotinha que almeja deixar
uma marca na sociedade, que não quer ter uma vida vazia, que quer viajar e
conhecer o mundo, que quer ser grande mesmo sendo tão pequena, que quer viver
um romance utópico, que quer beijar debaixo da chuva. Sou a garotinha de laço
amarelo na cabeça, esperando um alguém que a complete, porque ela já aceitou
que não é completa só com ela mesma, ainda falta uma parte e ela não se importa
de ser esse quebra-cabeça incompleto, afinal, ela é assim e se aceitou como é.
Ela é a Alice, ela sou eu, perdida em seu próprio país das maravilhas a espera
de um único sorriso para admirar.
Sorrisos
Bianca não gostava de meio sorrisos e não queria, portanto, meio sorrisos destinados a ela, queria um sorriso por inteiro só pra ela. Mas aquele sorriso, aquele que ela ficava sonhando e redesenhando em sua mente era de outrém e dela jamais voltaria a ser. Bianca é uma menina sonhadora, com ideais utópicos e desejos de uma boneca romântica. Gosta de receber flores para guardar na janela até elas murcharem. Ama ganhar chocolates para comê-los, enquanto saboreia junto com eles a felicidade plena.
Sonha em formar uma família com um cão e três gatos, talvez um papagaio que ensine a gritar o nome do seu tão amado time para o qual torce como se fosse um garoto, xingando palavrões quando o juiz não apita decentemente ou quando os jogadores parecem estarem com ressaca ao correr pelos gramados. Apaixonada com cartas, guarda todas que recebe com carinho em seu baú dos segredos.
Ama também receber elogios, ainda que eles a deixem com aquela carinha vermelha de vergonha, agradecendo docilmente por eles. Gosta de tagarelar e por isso sente necessidade de conversas. Mas às vezes tudo o que deseja é só ficar sozinha em seus momentos de tristeza. Sorrir bobamente quando recebe um singelo "bom dia" em seu celular daquela pessoa que lhe tira suspiros rotineiramente.
Bianca dispende abraços e carinhos a todos que ama, e tem necessidade de recebê-los na mesma quantia. Pode-se dizer que ela é carente na mesma proporção que é dramática. Alegre e divertida são características que ela não abandona por nada desse mundo. Felicidade pra ela é definição de vida. E vida é tudo. E mais um pouco.
Mas ela sabe que falta apenas um ínfimo detalhe para tudo ficar perfeito, não completo, perfeito em sua concepção de mundo róseo. Falta aquele sorriso. Aquele que a faz tremer as pernas. Que a deixa com borboletas no estômago de ansiedade. Aquele simplório sorriso único que ela almeja só para ela. E ela sabe que um dia terá, ainda que não seja o último sorriso com o qual sonhou. Um dia ela terá um sorriso só para ela e esse sorriso tornará sua felicidade mais perfeita do que já é.
Topa Cinema Sexta?
Topa Cinema Sexta?
"Hey você." Ela digitou no famoso whatsapp.
"Oi, amor." Ele respondeu.
"Como ta?" Aquela pergunta retórica pra ser educada.
"Bem. E você?" Mesmo se não estivesse bem, ele não responderia o contrário, afinal, é uma pergunta retórica.
"Bem tbm." Aparentemente o assunto morreria ali.
"Vai pra Várzea esse feriado?" Uma chance.
"Infelizmente não. Combinei de ir em um sítio com meus amigos." Ela respondeu com uma carinha triste.
"Affe". Ele demonstrou sua indignação.
"Mas vou no sábado de manhã." Então, em uma tentativa de talvez encontrá-lo essa semana ainda, ela jogou a indireta, esperando que ele fosse capaz de ler nas entrelinhas.
Ele visualizou. Não veio resposta. Ela frustrou. Desligou o celular e foi dormir. Mas não fechou os olhos. Ela estaria disponível sexta, foi o que deixou no ar com a frase "mas vou no sábado de manhã". Um cinema? Uma ida a uma praça tomar sorvete? Uma volta no parque? Qualquer coisa ela estaria satisfeita. Ela só queria que ele a chamasse pra sair. Porque ela vive em uma sociedade machista. Porque ela tem medo de ser julgada se der o passo que supostamente ele deveria dar, o cara, o homem, tanto faz. Porque ela mesmo se dizendo feminista teme por interpretações errôneas com destino ao pre-conceito e a criação de uma falsa imagem que ela não suporta mais carregar.
Débora. Muitos pensamentos para um corpo tão pequeno. Mas naquela noite, apenas um único desejo. Uma singela pergunta. "Topa cinema na sexta?"
Então ela dormiu, amanhã seria um novo dia.
Contar Estrelas
Deitada sobre a relva verde, se encontrava uma garota, cujo nome não é importante para o pequeno conto do momento. Olhava para o céu incrivelmente estrelado. Ela contava quantas estrelas conseguia contar, se perdendo várias vezes na contagem. Não se cansava daquela atividade, lhe era aprazível e não lhe fazia ter pensamentos indesejados. O vento tocava-lhe a tez alva, fazendo cócegas em suas bochechas. O tempo estava ameno, nem quente e nem frio. E o cheiro da grama lhe invadia as narinas. Aquela combinação de sensações somada ação de contar estrelas lhe tomavam a atenção. Tentava não pensar sobre o mundo a sua volta, mas sua mente era seu pior inimigo, lhe compelindo a devanear acerca do que não almejava, por isso contava estrelas e por contar estrelas era mais feliz, pelo menos naqueles poucos minutos que não se cansara de conta-las. Contou 68, 110, 200, 345 estrelas. Mas se perdia no meio de tantas e a contagem recomeçava. E por recomeçar tantas vezes que lhe veio a fadiga, e ela automaticamente parou de contar estrelas.
Então sua mente voltou a lhe pregar peças, não tão saborosas assim, um pouco amargas. Pegou-se pensando na solidão daquela viagem que havia feito. Uma viagem realizada sem planejar, dentro do carro, voltando pra casa depois da última aula do seu penúltimo período. Uma viagem para um lugar qualquer escolhido aleatoriamente no mapa. Uma mochila nas costas, saiu com o carro a fora. Parou naquela fazenda e se deitou sobre a relva. E começou a contar estrelas. Até que o cansaço chegou e a história voltou pro seu meio, como num ciclo vicioso, o que é redundante, mas para o conto que estou contando sobre a garota da relva o português me permite essa licença poética.
Ela parou de contar estrelas e começou a pensar sobre a própria vida. Na solidão momentânea. Faltava algo para aquela viagem ser incrível. Sim, faltava sua cara metade. O responsável por causar aquela estranha sensação de borboletas voando dentro de seu estômago. Aquele responsável por lhe roubar o fôlego em um beijo demorado. Aquele responsável por lhe fazer sorrir idiotamente. Faltava. E ela nunca encontrava. Por isso parou de procurar. Parou de procurar e deixou se encontrar com ele em seus rabiscos, nas palavras soltas de seus contos, nas metáforas que compunham sua vida.
No mundo de sua mente ele lhe dava flores, jantavam à luz de velas, riam de qualquer bobagem dita, aproveitavam a vida como deveria ser aproveitada, intensamente. Ela era intensa. Intensa nas emoções. Intensa nos sentimentos. Intensa na vida. Intensa. Não gostava de meio termo. Era tudo ou nada. 8 ou 80. Amante da vida. Romântica em hipérbole. Sonhadora utópica. Sonhava com um mundo melhor, porque acreditava na existência dele, e quando se acredita, isso torna-se real. Enxergava tudo ao seu redor com óculos colorido, mas sem perder as nuances em preto e branco que manchavam a pintura e a tornavam mais reais, mais palpáveis, ainda que duras e sofridas.
Era por isso que não queria parar de contar estrelas. Parava e pensava. E pensava demais. Sem seguir uma linha de raciocínio. Pensava e pensava e pensava. Não se cansava. Mas era preciso parar, caso contrário iria explodir. Então voltava a contar estrelas. E por contar estrelas é que não pensava. E às vezes não pensar lhe dava pequenos, porém satisfatórios momentos de felicidade plena, felicidade proveniente dos detalhes. Contava estrelas para esvaziar a mente. E por contar estrelas é que acabava, no fim, por pensar.
Metáfora das Estações
Quando eu te encontrei no verão do meu inverno, achei que poderíamos ser mais do que um simplório outono. Poderíamos ser uma primavera, com toda sua alegria, seu esplendor, sua exuberância. Mas preferimos nos tornar um implacável inverno, escondidos em nossas próprias cascas, em nossas próprias casas, debaixo de cobertores emocionais que julgamos erroneamente serem nossa proteção vital. Eu não o atinjo. Você não me atinge. A gente fere a si próprio. Poderíamos ter sido quentes e cheios de vida como verão. Mas optamos por nos tornarmos frios e distantes como o inverno. Criamos uma barreira de neve para impedirmos que nos aproximássemos mais do que deveríamos um do outro, acabamos por nos afastar. Quando eu te encontrei na solidão do outono, com suas folhas caindo no chão para murchar, procurei implantar a primavera para que você pudesse sorrir, pudesse esquecer daquele verão. Aquele verão que nunca vai sair de sua mente. Aquele longínquo verão que durou primaveras e primaveras. Aquele verão nostálgico. Tentei, tentei, tentei trazer um novo verão, mas o seu inverno apagou todo o calor que eu estava disposta a emanar. Inverno e verão, você e eu. Antagônicos até nas estações. Chame-me quando seu inverno se tornar uma primavera. Prometo não mais importuná-lo com o meu verão. Mas caso o outono chegue para mim, aviso-lhe que será tarde demais, pois estarei me preparando para encarar mais um novo inverno e o verão não terá vez. Traga-me logo seu verão para que eu possa finalmente abandonar o meu inverno. Não demore. Não demore. Venha logo. Quando eu te encontrei no verão do meu inverno, você me mostrou cada peculiaridade das suas estações. E a que eu mais gostei foi ironicamente do seu inverno, afinal, você é o inverno mais bonito que eu já presenciei.
Textuar
Textuar, um neologismo inventado por uma singela criança desprovida de um conhecimento profundo e avançado da nossa língua mãe, que passarei a usar diariamente em meus textos profusos e difusos. "O que vem a ser esse ato de textuar?" Perguntei para aquele pequeno ser de olhos inocentes e linguajar rústico. "Quando o senhor escreve um texto ué." Uma resposta óbvia para uma indagação irrisória. Textuar! É o modo simplório de usar e reutilizar as diversas palavras que constroem um mundo deveras particular. Mundo, o quão mais você pode me surpreender? Acabou de me mostrar um simples neologismo. Gostei. Usarei. Textuarei.
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